Saber e Poder

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CONTEÚDO
Introdução
O processo dialético entre Saber e Poder
Fundação perversa: a Independência como encobrimento do sometimento
Abolição e República: a liberdade de oprimir e um governo sem povo
Nova República, Novo Simulacro
O recalcado sempre retorna com violência
Saber Interditado e Reprodução da Hegemonia
Conclusão




Partimos aqui de dois verbos e duas categorias fundamentais. De um lado, saber como ato de descobrimento e chave de toda transformação; poder como capacidade e possibilidade de agir. De outro, o Saber, enquanto sistema, pode atuar simultaneamente como instrumento civilizatório e como dispositivo de dominação; o Poder, para além de uma faculdade, trata-se da própria estrutura ontológica que organiza a vida social. Nesse sentido, embora o Poder possa ser modulado historicamente, ele é inevitável. Compreender como Saber e Poder interagem dialeticamente permite pensar caminhos de emancipação e de evolução social, isto é, formas pelas quais o Saber poderia regular o Poder. Comecemos revisando como ambas as categorias se estruturam.


Até a invenção da imprensa por Gutenberg no século XV, o Saber era um privilégio muito restrito às elites, transmitido oralmente ou por manuscritos inacessíveis à maioria. Nesse contexto o Saber tinha uma configuração profundamente distinta, mais próxima do sagrado e do esotérico. Com a imprensa inaugura-se uma nova era em que o Saber passa a ser gradualmente fixado em textos, distribuído em larga escala e descolado de sujeitos específicos. Essa transformação altera a circulação do Saber e reconfigura as estruturas do Poder.


A partir do século XX o Saber não apenas se expande exponencialmente, mas também se fragmenta, se acelera e se torna instável, alterando novamente a sua função nas estruturas do Poder. Hoje, toda possibilidade está fundada no Saber, mas por sua própria natureza ele é sempre incompleto, um paradoxo que define tanto a produção do conhecimento quanto seus limites. Ao mesmo tempo em que o Saber é a chave para toda transformação histórica, social e subjetiva, ele jamais é totalizável. Não se trata apenas de uma limitação prática, de tempo, extensão ou alcance, mas de uma condição estrutural. “O saber é sempre não-todo; não importa o quanto se saiba, sempre haverá algo que escapa; nada é Todo..." (LACAN, 2003, p. 135). Entendemos assim que essa incompletude não é um defeito, mas constitutiva do Saber. Há sempre um ponto cego, uma exterioridade irredutível ao discurso. Diversas tradições filosóficas já indicaram este traço.


Para Hegel, o Saber está sempre em construção, e mesmo o que ele denomina de "Saber absoluto" não se refere a um ponto fixo de chegada, mas a um processo, o movimento da consciência que compreende as contradições e sua própria incompletude. Nietzsche concebe o Saber como sempre perspectivo, atravessado por pulsões, interesses e a linguagem. Em termos políticos, isto se traduz na impossibilidade de qualquer teoria ou projeto que pretenda abarcar a totalidade da experiência histórica e social.


Quanto ao Poder, convém aclarar que, embora o termo seja empregado aqui no singular, ele não deve ser entendido como entidade única, centralizada ou unívoca, mas como um conjunto de poderes hegemônicos que organizam e sustentam um determinado bloco histórico. Mais especificamente, trata-se da resultante histórica de uma complexa cadeia de micropráticas, micropoderes e estratégias biopolíticas, que se articulam de modo desigual e provisório em cada configuração hegemônica.


Esta abordagem parte da noção gramsciana de hegemonia e amplia-se com as contribuições de Laclau e Mouffe, para quem toda hegemonia é precária, discursiva e contingente; perspectiva que também dialoga com Foucault ao destacar a capilaridade e a dispersão do poder como formas não centralizadas, porém profundamente eficazes para organizar e naturalizar as relações sociais. Propõe-se assim pensar o Poder não como uma instância fixa, mas como um campo de disputas no qual o Saber, também fragmentado e historicamente situado, serve como instrumento tanto de sujeição quanto de emancipação.


O Poder, além de uma racionalização estratégica da desigualdade, é também o sintoma de uma insuficiência constitutiva. Como veremos depois, o núcleo hegemônico do Poder configura-se a partir de uma formação patológica que condiciona a realização pessoal à sujeição existencial do outro. Essa apropriação não pode ser voluntária, pois o outro resiste; por isso, o Poder só se realiza por meio da opressão-exploração.


No entanto, essa relação não preenche a falta original dos sujeitos do Poder, oferecendo apenas uma satisfação substitutiva que logo se esgota. Numa dinâmica similar à dependência química do adicto, o sujeito do Poder requer doses cada vez maiores para sustentar a ilusão de completude, condenando-se a uma expansão insaciável e autocorrosiva. (dinheiro, posição, controle sem limites). Assim, é na própria estrutura do Poder onde se encontra a semente da sua destruição, que abre o espaço para uma nova configuração. Devido a estes princípios fundantes, a presente análise de como o processo dialético entre Saber e Poder configura, corrói e transforma as estruturas da ordem hegemônica, não pretende esgotar as determinações, muito menos apresentar um programa fechado de superação.


O objetivo é bem mais modesto, e talvez por isso mais rigoroso, isto é, explicitar os nós conceituais e históricos que bloqueiam a emergência de um projeto social emancipador no Brasil. Mais concretamente, indagaremos como superar uma ordem social que se tornou excessivamente disfuncional para a imensa maioria da população, o atual e bem definido “99%”. Qual é a saída? Como encerrar o longo capítulo do Brasil colonial e ingressar numa contemporaneidade que, mesmo em crise sistêmica, permita a todos os brasileiros uma existência mais justa e satisfatória?


O processo dialético entre Saber e Poder

Antes de nos debruçarmos sobre as particularidades da realidade brasileira, convém desenvolver uma breve reflexão, ainda que esquemática demais, sobre a dinâmica dialética entre Saber e Poder. É amplamente aceito nas ciências sociais que as instituições, uma vez consolidadas, adquirem certo grau de automatismo, produzindo efeitos às vezes desconectados da consciência plena de seus agentes. Contudo, essas estruturas institucionais não são entidades autônomas nem etéreas, elas são criadas, moldadas e continuamente ajustadas por sujeitos concretos, com desejos, crenças, valores, e saberes que podem ou não terem fundamentação lógico-epistêmica.


Trata-se de um processo essencialmente dialético, no qual os indivíduos produzem instituições que, por sua vez, reconfiguram subjetividades, num circuito onde a história é sempre mais que a soma das vontades individuais, mas nunca alheia a elas. Reduzir o Poder a um jogo impessoal de forças discursivas, como acontece em algumas leituras extremas de Foucault, significa obscurecer o papel decisivo das formações psíquicas e das decisões morais na manutenção ou na superação da ordem hegemônica.


Eis que o diagnóstico de Adorno e Horkheimer (1985) sobre a razão instrumental ganha nova relevância; a racionalidade moderna, quando dissociada de valores éticos universais, converte-se facilmente em barbárie, a técnica se torna meio de opressão, o cálculo frio se impõe sobre a empatia, e a lógica da eficiência substitui qualquer horizonte de justiça.


Zizek (1999) complementa esta perspectiva ao mostrar como a ideologia contemporânea não apenas encobre a realidade, mas também estrutura a própria satisfação perversa (jouissance) que sustenta o Poder; um tipo de satisfação que é ontologicamente impossível porque está ligada ao preenchimento de uma falta que é constitutiva do sujeito. Esta tensão entre estrutura e subjetividade nos obriga a observar mais de perto o núcleo patológico presente em toda ordem hegemônica.


Todo sujeito organiza sua experiência a partir de uma estrutura de desejo, e essa estrutura está inevitavelmente marcada por um vazio, um ponto de falta, de incompletude. Essa falta não é patológica, mas constitutiva. Ela surge da própria entrada do sujeito na linguagem, na cultura e na ordem simbólica. Para lidar com essa falta, o sujeito se apóia em algo que a psicanálise denomina fantasia fundamental, uma cena imaginária que dá forma e direção ao desejo primário.


Esta fantasia, que funciona como uma espécie de roteiro inconsciente, costuma se organizar em torno de duas modalidades que quase sempre se entrelaçam: ser desejado pelo Outro (buscando amor, reconhecimento, inclusão) ou ter aquilo que o Outro possui (status, saber, prestígio). Embora esta fantasia nunca possa ser plenamente realizada, ela é o que mobiliza o sujeito para existir, amar, trabalhar, criar ou lutar. Todas as vivências respondem, em alguma medida, a essa fantasia fundamental que tenta inscrever no mundo real aquilo que foi perdido na origem, na constituição do sujeito.


Nas pessoas que consideramos socialmente adaptadas, essa tentativa de realização é mediada pelo reconhecimento do limite, e assim a estrutura psíquica “entende”, ainda que inconscientemente, que jamais poderá alcançar uma completude absoluta. Este processo predispõe o sujeito a negociar com a falta, com a frustração e com o tempo; uma negociação que, apesar de dolorosa, sustenta o laço social, a ética e o Saber.


Mas há outras formas de subjetividade, patológicas, que se constituem de modo distinto. O sujeito do Poder, por exemplo, na tentativa de realizar sua fantasia fundamental, nega a impossibilidade de realizá-la. O sujeito se recusa a aceitar (inconscientemente claro) a falta como constitutiva, e sua estrutura psíquica insistirá em converter a fantasia fundamental num projeto real de conquista, acumulação, dominação, exploração, ou de ser admirado e temido incondicionalmente. O que para o sujeito comum é um limite, para o sujeito do Poder é uma falha que deve ser superada. Esta negação da falta transforma a fantasia do poderoso num projeto de totalização.


O sujeito do Poder organiza o mundo à sua volta para que este confirme sua fantasia, rejeitando ou eliminando tudo aquilo que se oponha ou ameace desmenti-la. Assim, o Outro deixa de ser reconhecido como sujeito e é convertido em objeto, em algo que deve servir para validar o Poder ou ser descartado. Cabe aclarar que a tradução da fantasia fundamental em realidade é contingente, mas não aleatória, resultado de uma convergência entre estrutura psíquica, posição social e contexto histórico-ideológico.


Vemos assim que o Poder não se sustenta apenas por estruturas objetivas, mas por sujeitos que o desejam, o legitimam e dele procuram extrair uma satisfação perversa (jouissance) que resulta sempre insuficiente. O sujeito do Poder não obtém satisfação psicológica dos bens que controla, os quais funcionam como meios, mas da posição-função que assumem os dominados (VAILLANT VALDES, 2024). Isto é uma condição necessária; não há sujeitos do Poder isentos desta qualidade estruturante, assim como não há formas de Poder totalizante que não estejam fundadas na opressão e na exploração.


Na tentativa de realizar uma fantasia de completude, totalizante, o Poder instrumentaliza o Saber, convertendo-o em ideologia, um sistema de legitimação que confere sentido à ordem existente e naturaliza a posição dos dominados. Nesse contexto, a função do Saber é estratégica, pois fornece à ideologia sua aparência de racionalidade e inevitabilidade. A lógica que configura a ideologia é tal que o dominado, ainda que inconscientemente, experimenta uma satisfação simbólica em sua própria subordinação. Contudo, essa falsa satisfação nunca se traduz num benefício psicológico real; ela apenas dissimula o verdadeiro esvaziamento existencial produzido pela opressão-exploração do Poder.


Prestemos atenção, é precisamente esta posição do dominado, que apesar de ser oprimido e sacrificar sua existência idealiza uma satisfação inexistente, o que alimenta a satisfação perversa (jouissance) do poderoso. No entanto, o poderoso também é prisioneiro de sua própria fantasia que nunca encontra satisfação plena, condenando a todos a uma repetição infinita da relação de opressão-exploração. É este ciclo permanente de tentativa e fracasso o que confere ao Poder seu caráter totalizante, repetitivo e sem limites.


Importante frisar que entender o Poder como algo exercido por subjetividades perversas não é um ato de moralismo nem de simplificação psicologista. Trata-se de reconhecer um fenômeno mais amplo de deterioração cultural e epistemológica, que faz parte do metabolismo socioeconômico. A ascensão de lideranças com transtornos psíquicos severos não é, portanto, uma simples anomalia política, mas o sintoma de uma crise civilizatória.


A deslegitimação do saber científico, a mercantilização das pseudociências, a naturalização de condutas antiéticas sob a bandeira de uma liberdade sem alteridade, e a legitimação do delírio como expressão de um direito humano, são todos processos de deterioro sociocultural que criam as condições para este tipo (sinistro) de lideranças. Neste contexto, o processo dialético entre Saber e Poder pode ser melhor explicado como um ciclo de transformação estrutural. Tudo começa com a gênese institucional. Diante de uma necessidade evolutiva, emerge um conjunto de saberes que funda novos arranjos institucionais, capazes de reorganizar a vida coletiva. Em seguida, ocorre a captura hegemônica, quando um núcleo patológico instrumentaliza esses saberes, redesenhando as instituições segundo uma lógica de opressão-exploração para realizar uma fantasia que é impossível.


Para manter uma posição de controle, resulta necessário instaurar um bloqueio simbólico; os saberes que originalmente possibilitaram a transformação começam a ser interditados, sabotando a própria evolução que deu origem à ordem hegemônica. Com o tempo, esse bloqueio conduz a um colapso interno do Poder, pois ao impedir a renovação crítica, compromete suas próprias bases de funcionamento e intensifica sua disfunção estrutural, abrindo espaço para sua decomposição. É somente a partir desse esgotamento que pode emergir uma superação dialética.


O Poder raramente é derrotado por forças externas, antes ele implode quando sua disfunção compromete os mecanismos simbólicos e institucionais que o legitimam. Só então se torna possível o surgimento de uma nova ordem. O atual ambiente social brasileiro, no qual a crítica é rebaixada a opinião, a racionalidade é tratada como injúria, e a insanidade é exaltada como autenticidade, mostra essa instância, a de um Saber capturado pelo Poder em sua forma mais regressiva. O resultado é a produção de uma ordem simbólica que bloqueia a expansão compartilhada dos saberes para a manutenção de um certo equilíbrio.


Em consequencia, a principal tarefa das forças emancipadoras é direcionar a confrontação para construir uma nova racionalidade social reconhecida pela maioria, que sirva para reorganizar o país com base em novos paradigmas. Eis a importância da educação e das novas lideranças se identificarem com um novo projeto de nação, ao invés de repetir o modelo já colapsado e competir por um espaço de poder na estrutura tradicional. A história mostra que, por vezes, as sociedades ficam aprisionadas numa agonia prolongada entre um Poder já decadente e corroído e a ausência de uma ordem alternativa consistente. Esse é o presente que vivemos, e que nos impõe a seguinte pergunta: por que persiste o modelo de poder colonial no Brasil?


Fundação perversa: a Independência como encobrimento do sometimento

A chamada Independência do Brasil, em 1822, é frequentemente ensinada e encenada como um gesto heróico de ruptura com o inimigo opressor, mas a análise histórica revela um movimento cuidadosamente arquitetado pelas elites portuguesas para preservar seu poder. Após fugir da invasão napoleônica em 1808, Dom João VI transfere a Corte para o Brasil, abandonando o povo português à própria sorte, num ato de clara covardia que traiu, ao mesmo tempo, uma sociedade e a própria identidade.


Quando a conjuntura européia exige seu retorno, o rei deixa no Brasil seu filho Dom Pedro como príncipe regente, iniciando assim o plano de continuidade dinástica que se consolida no ano seguinte, quando o herdeiro do trono português se auto-proclama imperador do Brasil. Temos aqui o primeiro paradoxo: a liberdade através de uma monarquia, com apoio da elite luso-brasileira. Caso o projeto de independência fracassasse, os Braganças ainda manteriam o controle da colônia.


Essa operação simbólica se repetirá duas vezes anos depois. Primeiro, quando Dom Pedro I deixa seu filho como imperador regente no Brasil e retorna a Portugal como Dom Pedro IV, herdeiro ao trono. Depois, quando nomeia a sua filha rainha de Portugal para assim manter o controle das duas monarquias. Documentos históricos revelam que Dom Pedro manteve ambos os títulos simultaneamente durante certo tempo, numa duplicidade que desmente a soberania brasileira. Ainda assim, a narrativa da Independência é ensinada nas escolas e festejada nas ruas como um ato de libertação nacional, evidenciando o grau de captura simbólica da história. Deste modo, o Brasil se funda sobre uma meta-mensagem enlouquecedora: “o inimigo dono do Brasil é o herói dono da liberdade”.


A Independência, enquanto símbolo nacional, passou a funcionar como um código cifrado que comunica, em nível inconsciente, que as mudanças devem ocorrer sem ruptura, sem participação popular e sem confronto com as elites. Como bem observa Marilena Chaui (2000), trata-se de um mito fundador autoritário, onde o povo é excluído da cena histórica, e o Saber é monopolizado por uma elite que o transforma em instrumento de legitimação do Poder. Com este fim, a educação, por trás de sua precariedade e disfunção social, é ativamente utilizada como tecnologia de reprodução simbólica da dominação, um conceito magistralmente desenvolvido por Paulo Freire na sua obra “Pedagogia do Oprimido”.


Abolição e República: a liberdade de oprimir e um governo sem povo

A lógica da ruptura que encobre a garantia de continuidade se repete ao longo da história. A Abolição da escravidão em 1888 foi conduzida sem qualquer reparação, integração ou redistribuição. A libertação foi pervertida em liberdade para oprimir, deixando os ex-escravizados à margem da sociedade, sem acesso à terra ou à cidadania plena.


Mais uma vez, uma mudança aparente sustentou a continuidade da dominação. De modo similar, a Proclamação da República no ano seguinte não representou uma democratização do poder, mas uma reorganização oligárquica. Conduzida por setores militares e cafeicultores, sem participação popular, instaurou-se uma república das elites, onde o voto era censitário e a política dominada pelo pacto entre coronéis e oligarquias estaduais.


Nova República, Novo Simulacro

O fim da ditadura militar, em 1985, evidencia a continuidade da mesma lógica de ruptura encobridora. A transição política negociada manteve intactas as estruturas de poder e repressão, legitimou os crimes da ditadura com uma anistia total, e a sociedade foi novamente excluída, após encenar uma participação popular que nunca aconteceu (Direitas já).


A Constituição de 1988, etiquetada como “avanço”, sofre até hoje bloqueios na sua implementação por parte das elites. Observe-se que embora sempre existam conjunturas com especificidades e elementos “novos”, elas emergem de um processo histórico e social mais amplo e complexo, no qual as determinações simbólicas delimitam o campo do possível.


O recalcado sempre retorna com violência

O golpe parlamentar de 2016 repete a sintomatologia sócio-histórica do Brasil. Diante da ameaça de ruptura com a ordem oligárquica, opera-se a mesma “ruptura encobridora” de sempre, uma falsa solução que interdita a possibilidade de mudança real. Sob o disfarce da legalidade, o golpe é convertido em “impeachment”, com o discurso de salvaguardar os interesses da nação. À primeira vista, o evento pode parecer consequência lógica de uma conjuntura adversa, crise econômica, insatisfação popular, projetos que contrariavam a lógica patrimonialista e neoliberal, etc.


No entanto, um olhar mais profundo revela a persistência de determinações estruturais, e o verdadeiro peso dos fatores. O governo deposto representava algo que excedia a conjuntura imediata: uma presidente mulher, ex-militante torturada pela ditadura, que ousou instituir a Comissão da Verdade, medida simbólica que tocava diretamente o núcleo traumático da história brasileira. O giro político que se deu posteriormente em direção a um neo-fascismo confirma o retorno violento do recalcado. A defesa da memória, da justiça e da inclusão resultavam inadmissíveis numa ordem fundada sobre o silenciamento, o autoritarismo e a desigualdade estrutural.


Saber Interditado e Reprodução da Hegemonia

A cada novo ciclo, o Brasil simula rupturas para reafirmar continuidades. É essa estrutura que precisamos desvendar, não apenas o que aconteceu, mas como foi narrado, quem pôde falar, e o que não pôde ser dito. A continuidade do poder hegemônico de matriz colonial no Brasil não pode ser compreendida apenas pela reiteração de pactos institucionais, mas requer uma análise da infra-estrutura simbólica que sustenta tais pactos.


A interdição do Saber queda em evidência na manutenção de uma educação precária e insuficiente em todos seus níveis para sustentar qualquer transformação estrutural, resultado de um acúmulo histórico de políticas e gestões totalmente descompromissadas com a função social da educação. O efeito desta interdição mostra-se devastador. As leituras mais conservadoras do governo e suas organizações parceiras situam o analfabetismo funcional (AnF) em apenas 30% dos adultos, não apenas por conveniência mas porque utilizam metodologias difusas que colocam o patamar da funcionalidade muito abaixo do que resulta aceitável numa democracia moderna.


Estudos mais rigorosos, com metodologias mais consistentes, mostram níveis de analfabetismo funcional próximos de 70% na população adulta (ARTEBRA, 2024). Trata-se de uma realidade na qual a maioria dos cidadãos não têm o desenvolvimento cognitivo para compreender sua própria história, questionar os dispositivos de poder e alcançar uma autonomia ideológica.


Outro pacto que reforça a captura do Saber atinge todo o campo comunicacional, desde uma política de mídia que favorece unicamente grupos de poder, até uma comunicação institucional contraditória e ficcional, que neutraliza posições críticas e reforça a ordem hegemônica.


Muniz Sodré (2012) explica com clareza que o controle simbólico se dá não somente por meio da escola, mas também da mídia, que fragmenta a realidade em acontecimentos desconexos, sem contexto nem historicidade. Isso impede a formação de uma memória coletiva crítica e dificulta a articulação entre experiência vivida e estrutura histórica.


Para Vladimir Safatle (2012) existe um certo pacto nacional de recalque e negação, no qual os traumas históricos, como a escravidão, o genocídio indígena, a violência estatal e a desigualdade extrema, são sistematicamente silenciados, esquecidos ou deformados em propaganda eleitoral; todo um processo no qual a escola e a mídia atuam como instrumentos desse recalque. O resultado é uma população despolitizada, que sustenta o discurso do poder ainda que opere contra seus interesses (lembremos a lógica da satisfação perversa do poderoso). Esta articulação entre precarização do Saber e captura simbólica é fundamental para entender por que o poder colonial não só persiste, mas se atualiza.


Conclusão

Atingir um grau de liberdade para além das ideologias não se consegue eliminando toda e qualquer estrutura hegemônica, um romantismo que resultaria numa nova ordem disfuncional. O Poder, além de um cálculo racional para conservar uma posição hegemônica, é também o sintoma de uma insuficiência constitutiva, inevitável enquanto função do metabolismo socioeconômico.


No entanto, o Poder não é por si só patológico, totalizante, ou destrutivo, mas um reflexo dos sujeitos que o configuram e o exercem. Por isso, a chave para reconfigurar o Poder hegemônico está na educação, não apenas como instrução técnica ou produção de conhecimento, mas como formação de uma consciência crítica, capaz de operar o desenvolvimento humano necessário para transformar a estrutura simbólica da dominação.


No Brasil, persiste um grave equívoco a esse respeito. Influenciada pela lógica colonial, a sociedade confunde educação com adestramento técnico, política com clientelismo, e desenvolvimento humano com assistência e acesso ao consumo, obscurecendo o potencial emancipador do Saber. Superar tais distorções exige mais do que reformas institucionais ou substituição de elites. O desenvolvimento humano implica, acima de tudo, aceitar a instabilidade estrutural da subjetividade, e reconhecer que o conflito e a tensão são condições inerentes à experiência humana.


Em consequencia, a verdadeira ordem civilizatória pressupõe a capacidade de conviver e negociar com as diferenças, sustentando o antagonismo constitutivo entre elas sem recorrer à sua anulação. Nessa perspectiva, um Poder saudável não é aquele que suporta um equilíbrio ideal (irreal), mas o dispositivo que regula o conflito, preservando a dignidade e a identidade dos sujeitos. Aqui a dialética entre Saber e Poder é decisiva, pois o Saber crítico e reflexivo permite compreender, mediar e limitar o exercício do Poder, evitando que ele se torne totalizante e opressor. É a partir dessa articulação simbólica que resultará possível instaurar uma ordem social na qual o conflito não destrua nem explore, mas crie as condições para a coexistência e o desenvolvimento humano pleno.



Sobre o Autor: :
Alejandro Vaillant Valdes é educador e pesquisador social, nascido na Argentina e radicado no Brasil. Se desempenha como Diretor de Pesquisa Social e Produção Cultural na ARTEBRA há mais de una década. É Mestre StS em Educação e Tecnologias, Mestre LtS em Docência e Gestão do Ensino, Bacharel em Serviço Social, e Bacharel em Análise de Sistemas. Autor de vários livros, incluindo: "Educação e Desenvolvimento Social", "Sociocomunicação", e "Epistemologia da Civilidade" .
Contato: alejandro.vaillant@artebra.org

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BIBLIOGRAFIA

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