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filosofia

O aporte de Thomas Kuhn

 
pelo Staff da Revista Consciência Social



Thomas Kuhn (1922 - 1996) foi um físico e filósofo da ciência estadunidense. Seu trabalho incidiu sobre história da ciência e a filosofia da ciência, tornando-se um marco no estudo dos processos que levam ao desenvolvimento científico. Seu primeiro livro foi "A Revolução Copernicana", publicado em 1957. Mas foi em 1962, com a publicação do livro "Estrutura das Revoluções Científicas" que Kuhn se tornou conhecido não mais como um físico, mas como um intelectual voltado para a história e a filosofia da ciencia.

Em uma entrevista cedida à filosofa italiana Giovanna Borradori, no ano de 1965, em Londres, Thomas Kuhn explica sinteticamente seu percurso acadêmico até a construção deste texto, que se tornaria o referencial de discussão entre os filósofos da ciência. Sua carreira inicia-se como físico e, até a defesa de sua tese de doutorado, tinha tido poucos contatos com a filosofia. Sua justificativa para este pouco contato com a filosofia é fundada principalmente na ocorrência da Segunda Guerra Mundial, pois havia, segundo ele, uma enorme pressão para empreender carreiras científicas e um grande desprezo em relação às matérias humanísticas. Todavia, foi na Universidade de Harvard, quando teve que preparar um curso de ciências para não cientistas, que pela primeira vez, ele utilizou exemplos históricos de progressos científicos. Dessa experiência, Kuhn percebeu que a o desenvolvimento da ciência, numa perspectiva histórica, era muito diferente da apresentada nos textos de Física ou mesmo de Filosofia da Ciência. O livro Estrutura das Revoluções Científicas foi, então, um texto produzido e direcionado a um público filosófico, mesmo não sendo um livro de filosofia. Isso porque, conforme ele mesmo dizia, Kuhn criticava o positivismo sem conhecê-lo em profundidade, assim como não se sentia influenciado pelo pragmatismo de William James e John Dewey. A repercussão do seu livro foi tão grande na comunidade acadêmica que, já na segunda edição, em 1970, Kuhn apresentou um pós-escrito, no qual seus pontos de vista são, em alguma medida, refinados e modificados. E, para responder às acusações de irracionalismo, ele escreve, em 1974, um ensaio intitulado Reconsiderando os paradigmas e, logo depois, desenvolve com maior profundidade as descontinuidades históricas, que foram apresentadas em outro livro chamado "Teoria do corpo negro e descontinuidade quântica". Especula-se que Kuhn tenha se apropriado de muitas das idéias de Ludwick Fleck (como paradigma, revolução paradigmática, ciência normal, anomalias, etc), médico polonês que pouco escreveu sobre história da ciência e que permaneceu e permanece desconhecido de muitos.

Thomas Kuhn, no seu estudo da história da ciência, mostra um contraste entre as duas concepções da ciência: por um lado, a concepção FORMALISTA, onde a ciência é entendida como uma atividade completamente racional e controlada; por outro lado a concepção HISTORICISTA, onde a ciência é entendida como uma atividade concreta que se dá ao longo do tempo e que em cada época histórica apresenta peculiaridades e características próprias. Este contraste emerge na obra "A Estrutura das Revoluções Científicas", e ocasionou o chamado giro histórico-sociológico da ciência, uma revolução na reflexão acerca da ciência ao considerar próprios da ciência os aspectos históricos e sociológicos que rodeiam a atividade científica, e não só os lógicos e empíricos, como defendia o modelo formalista, desafiado pelo enfoque historicista de Kuhn. Segundo o enfoque historicista de Kuhn, a ciência desenvolve-se segundo determinadas fases:

1. Estabelecimento de um paradigma
2. Ciência normal
3. Crise
4. Ciência Extraordinária
5. Revolução científica, e finalmente o estabelecimento de um novo paradigma.

A noção de paradigma resulta fundamental neste enfoque historicista e não é mais que uma macroteoria, um marco ou perspectiva que é aceita de forma geral por toda a comunidade científica (conjunto de cientistas que compartilham um mesmo paradigma e realizam a mesma atividade científica) e a partir do qual se realiza a actividade científica, cujo objectivo é esclarecer as possíveis falhas do paradigma ou extrair todas as suas consequências. A ciência normal é o período durante o qual se desenvolve uma atividade científica baseada num paradigma. Esta fase ocupa a maior parte da comunidade científica, consistindo em trabalhar para mostrar ou pôr a prova a solidez do paradigma no qual se baseia. Porém, em determinadas ocasiões, o paradigma não é capaz de resolver todos os problemas, que podem persistir ao longo de anos ou séculos inclusive, e neste caso o paradigma gradualmente é posto em xeque, e começa-se a considerar se é o marco mais adequado para a resolução de problemas ou se deve ser abandonado. Então é quando se estabelece uma crise. O período da Ciência Extraordinária, é o tempo em que se criam novos paradigmas que competem entre si tentando impor-se como o enfoque mais adequado, e produz uma revolução científica quando um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo se inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Desta maneira, o enfoque historicista dá importância a fatores subjetivos que anteriormente foram passados por alto na hora de explicar o processo de investigação científica.

Kuhn mostra que a ciência não é só um contraste entre teorias e realidade, senão que há diálogo, debate, tensões e até lutas entre os defensores de distintos paradigmas. E é precisamente nesse debate ou luta onde se demostra que os cientistas não são só absolutamente racionais. Eles não podem ser objetivos, pois nem a eles é possível afastar-se de todos os paradigmas e compará-los de forma objetiva, senão que sempre estão imersos em um paradigma e interpretam o mundo conforme o mesmo. Isto demonstra que na atividade científica influem tanto interesses científicos (ex: a aplicação prática de uma teoria), como subjetivos, por exemplo, a existência de coletividades ou grupos sociais a favor ou contra de uma teoria concreta, ou a existência de problemas éticos, de tal maneira que a atividade científica vê-se influenciada pelo contexto histórico-sociológico em que se desenvolve. Observe-se que ate o propio Kuhn, epistemologicamente falando, também se guia por um paradigma para estudar a formação dos paradigmas! Por isso, para ele a ciência é subjectiva e evolui de modo a aproximar-se da verdade. Esta aproximação é feita pela substituição de teorias, paradigmas que são segundo Karl Popper objectivamente melhores que a teoria ou paradigma anteriores, sendo assim a ciência segundo Popper é objectiva. Mas Kuhn critica este ponto de vista e afirma que dois paradigmas são incomensuráveis, e tambem para um paradigma ser melhor que outro tinha de ser objectivamente melhor que o anterior mas isso não acontece pois os factores que levam a escolher um paradigma em desfavorecimento do anterior são factores subjetivos. Sendo assim a ciência não é totalmente objetiva pois as escolhas que levam a evolução da ciência são meramente subjetivas.

A polêmica sobre a obra de Thomas Kuhn gira em torno desta noção e da ideia de paradigma científico e "incomensurabilidade" entre os paradigmas. Ken Wilber defende (em seu livro A União da Alma e dos Sentidos) que a idéia de paradigmas proposta por Kuhn tem sido apropriada e abusada por grupos e indivíduos que tentam fazê-la parecer uma declaração de que a ciência é arbitrária. Entretanto, a obra de Kuhn abriu espaço para toda uma nova abordagem de estudos chamados "Estudos Sociais da Ciência" e que desembocou no "Programa Forte da Sociologia".
    Dez 15,2014





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