Nova Edição Artigos Anteriores Espaço Acadêmico Quem Somos Contato
 
Sociedade

Discriminar os discriminadores. Funcionaria?


No Brasil, a discriminação ainda persiste em grande escala, porque seus defensores controlam grandes recursos
 
por Djamila Ribeiro

A partir de um artigo de Djamila Ribeiro, achamos interessante comentar a questão da discriminação deixando de lado a perspectiva ética.
(*) Uma pessoa achar que não existe racismo no Brasil, não muda o fato de que, em 2013, negros ganharam 54% dos salários de brancos segundo pesquisa do IBGE. Tampouco muda o fato de o assassinato de jovens negros no Brasil ser duas vezes e meia maior em relação a jovens brancos; da maioria da população negra ser pobre por conta do legado da escravatura; das mulheres negras ainda serem a maioria das empregadas domésticas e estarem na base da pirâmide social. Uma pessoa achar que machismo não existe não muda o fato de a cada cinco minutos uma mulher ser agredida no Brasil [Mapa da Violência 2012]. Saber fazer a crítica é uma coisa, desonestidade intelectual é outra. Correto, debater inverdades é impossível; legitimar a ignorância é crime; negar fatos sociais, com abundancia de evidências,
é patológico.

Mas troquemos a indignação pela indagação:
Que sucede quando uma serie de fatos, facilmente comprováveis, são negados por um setor relativamente homogèneo da sociedade? Vejamos mais em detalhe. Primeiro, identifiquemos a quais tipos de fatos nos referimos.
A) Niveis de salarios
B) Homicídios
C) Agressoes contra mulheres

Os três tipos de fatos se expressam através de medições rigorosas. As medições mostram aspectos da realidade socio-econômica. Os valores das medições representam tendências fortemente marcadas numa direção, ou seja, não ha espaço para segundas interpretações. Claramente, um amplo setor da sociedade é vitima de discriminação.

Um grupo no topo da pirâmide, consideravelmente menor que o discriminado, se divide em duas classes: uma que fundamenta a discriminação como consequencia lógica [do preconceito], e outra que esconde o preconceito. Uma classe encoraja à outra. O preconceito é sempre uma atitude perversa, pois tenta converter uma mentira [o preconceito] em verdade. Eis aqui o problema: a unica coisa consciente para estas pessoas são os beneficios decorrentes do preconceito, mas os motivos que levam a ele não. É por isto que não adianta tentar rebater suas argumentações, pois elas são arbitrarias [existem \"antes\" de conhecer os fatos]. Paradoxalmente, nesta discussão, as pessoas supostamente melhor educadas ficam embrutecidas, se convertindo naquilo que desprezam atraves do preconceito.

Então, como vamos resolver esta questão social? Vamos levar todos para o divã?

Certamente isto é tão inviável quanto tentar discutir o assunto racionalmente.
Ja sabemos que o preconceito contamina todas as escolhas, descartando qualquer situação ou conteúdo que ameaçe sua lógica [o melhor, a sua incoerência]. Pela mesma razão, utilizar argumentos éticos como tentativa de reflexão não funciona. Estes artigos não são lidos por este tipo de pessoas, quem discrimina não suporta passar das primeiras linhas, portanto as argumentações não operam mudança nenhuma. Existem outras abordagens, por exemplo: lembrar que quem discrimina precisa manter a autoestima à salvo, e por consequencia, cuidar da imagem que os outros percebem e devolvem. É um processo complexo e lento.

Estamos no Brasil num estagio crítico. Os \"discriminadores\" ainda permanecem isolados num grupo compacto, que serve para se identificar, validar os preconceitos e sustentar a autoestima ao mesmo tempo. Este isolamento esta no seu limite. A quantidade e qualidade de ódio que surge em diversas manifestações está muito perto de converter-se em violência real. Grupos como estes existem em muitos países, mas em poucos eles são tão poderosos por deterem uma parcela importante de riqueza e poder, como acontece no Brasil. É somente por isso que a discriminação ainda persiste em grande escala, porque seus defensores controlam grandes recursos. Alias, é por esta mesma razão que a reforma política é tão importante e urgente. Desde uma perspectiva histórica, vemos que o problema da discriminação, encapsulado numa minoria [homogênea e poderosa] é parte de um confronto entre ideias do século XIX e idéias pos Segunda Guerra. Está na hora de acabar com esse confronto. É hora de \"discriminar\" a quem discrimina. Alguns falam: \"estariamos perpetuando o problema reproduzindo-o na propria solução\". Falso. Os criminosos são justamente discriminados pela sociedade atraves da lei [não do preconceito]. Os torturadores da ditadura estão sendo discriminados pela sociedade a partir de fatos e evidências. Do mesmo modo, quem discrimina através do preconceito [e do privilegio] deve ser discriminado pela sociedade toda.

Retomando o artigo de Djamila Ribeiro, opinião que nega a existência de fatos sociais e ridiculariza lutas históricas por equidade, não é opinião, é violência. Fora isso, ainda há os que confundem liberdade de expressão com discurso de ódio. Um indivíduo dizer: \"sou da opinião de que negros e gays são inferiores\" não é ponto de vista diferente, é discurso de ódio.

A filósofa estadunidense Judith Butler, na obra Excitable Speech, diz: \"A linguagem opressora do discurso de ódio não é mera representação de uma ideia odiosa; Ela é em si mesma uma conduta violenta, que visa submeter ao outro, desconstruindo sua própria condição de sujeito, arrancando-o do seu contexto e colocando-o num outro no qual paira a ameaça de uma violência real a ser cometida - uma verdadeira ameaça, por certo\".

Se valer da liberdade de expressão para promover a discriminação como uma \"escolha\" ou \"opinião\" é crime, e aqueles que se acham no direito de serem perversos devem ser combatidos. Sim, os discriminadores devem ser discriminados, já.


(*) leia o artigo original - fonte: Carta Capital    





Seu comentário será considerado pelo Editor para ser publicado.
 
Seu Nome:
Seu Email:

Comentário:
Código de Segurança: escreva este código: 917292




Perspectivas

A teoria da Complexidade. É hora de mudar o foco, e ainda nem conseguimos norm...
 
Sustentabilidade

O planejamento sustentável... é mesmo sustentável?
 

Mais Lidos     Recomendados  


Psicologia

Psicanálise e psicologia cognitiva. O eterno dilema humano de insistir na supe...
 
Serviço Social

Entrevista: José Paulo Netto. Uma brilhante exposição sobre a dialética e o fu...
  Livros




Cultura

Bienal da Bahia.
perguntaram: é tudo Nordeste? Mas, é tudo democracia e inclussã...
 
Vídeos Interessantes
  cinema