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sociedade

Queremos ser normais ou bem comportados ?


Tivemos sorte por não ver visionários como Einstein, Newton e Beethoven numa sala de aula como as de hoje
 
por Carta Capital



“Foco” é a palavra de ordem nas escolas e no mercado de trabalho.
Para vencer na vida, a dispersão de atenção para outros interesses além das tarefas do dia a dia é não apenas mal vista: é diagnosticável como um transtorno mental passível de cura. De acordo com uma ala da psiquiatria, essa ideia de “transtorno” parte de duas premissas. Uma é semântica. Ela suaviza a ideia de “doença mental” e passa a ser usada como uma espécie de identidade psíquica por meio de nomenclaturas como “TOC”, “TDAH”, “hiperatividade”, “bipolaridade”,etc. A outra dita que, por trás da desordem, existe uma ordem. Nesta ordem, o estudante estuda e o trabalhador trabalha. Em nome dela os medicamos cada vez mais, sem que sejam levados em conta os impactos que o diagnóstico e a medicação tem para as crianças e suas famílias. Quem analisa os índices de tratamento à base de drogas psicoativas imagina que o planeta enfrenta hoje uma “epidemia” de transtornos mentais.

Nos EUA, uma em cada 76 pessoas são hoje consideradas incapacitadas por algum tipo de transtorno – em 1987, este índice era de uma em cada 184 americanos. Tais diagnósticos criaram um mercado poderoso de medicamentos psicoativos – o que significa medicar tanto pacientes com crises agudas de ansiedade até crianças diagnosticada com grau leve de “hiperatividade” ou com síndrome de Asperger. Essas crianças precisam manter o “foco” na sala de aula se quiserem ter alguma chance de passar no vestibular. A pressão sobre elas em um mundo cada vez mais competitivo cria um consumidor fidelizado: a criança que hoje precisa de medicamento para se manter em alerta será, no futuro, o adulto dependente de medicamentos para dormir.

Essa pressão, apontam estudos, tem origem na sala de aula, passa pela sala da direção, chega aos pais como advertência e desemboca na sala do psiquiatra, incumbido da missão de enquadrar o sujeito a uma vida sem desordem. Mas como cada categoria de transtorno mental é construída e delimitada? Quais pressupostos fazem com que determinados comportamentos e/ou estados emocionais sejam considerados normais e outros, não? Quem definiu que uma criança com foco na sala de aula é normal e uma desconcentrada é anormal? Qual é, enfim, a “ordem” que a prática psiquiátrica visa a garantir?

Se for esta a normalidade que tanto buscamos, o mundo teve sorte por não ver visionários como Bill Gates, Einstein, Newton e Beethoven em uma sala de aula nos dias atuais. Todos eles tinham dificuldade em socialização, comunicação e aprendizado. Sofriam, em algum grau, de espectro de autismo, e seriam facilmente transformados em bons alunos, diagnosticados, tratados e medicados. O mundo perderia quatro gênios, mas ganharia excelentes funcionários-padrão, contentes e domesticados.

Para ampliar o artículo, caberia à comunidade científica considerar esta área da ciência norteamericana, no mínimo, como duvidosa. Deixando estereotipos de lado, uma simples leitura do desenvolvimento social nos EUA e de alguns indicadores, como o consumo de drogas ilícitas e a violência precoz, evidencia uma problemática estrutural, mais ainda quando esses dados se analizam comparativamente aos de países com grau de desenvolvimento econômico similar. Evidentemente, tal problemática envolve questões teóricas, de diagnóstico e de lobby político por parte dos laboratorios, que financiam pesquisas, eventos e publicações. Aos estimados colegas universitários pedimos que por favor tomem cuidado com as \"implementações\" da psiquiatria norteamericana, as evidências demandam cautela.


(*) leia o artigo original - fonte: Carta Capital    





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