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sociedade

Racionalidade pelo Privilégio: uma troca socialmente saudável

 
por Alejandro Vaillant Valdes



Todos gostam de ter privilégios. Quem viaja de avião, adora sair da multidão
e ficar no conforto da área vip, somente para clientes especiais. Importa pouco se você pagou para ter esse privilegio ou se encontrou um amigo na empresa. Os gerentes geralmente podem entrar e sair do escritório sem dar explicações, e os acadêmicos de renome tem o privilegio de ausentar-se com bastante freqüência da sala de aulas para ministrar palestras.

Como na maioria dos desejos, quem desfruta o privilegio não se pergunta se ele é merecido ou não, simplesmente o aproveita. Etimologicamente, a palavra vem do latim “privilegium”, composta por “privus” [idéia de algo pessoal, privado] e por “legalis” [idéia de lei ou legislador]. Um privilegio é um direito que os outros não tem e que geralmente se mede pelo grau de exclusividade: tanto menos pessoas possuam o privilegio mais valioso ele é [e por caráter transitivo também seu titular].

À primeira vista, evidenciamos o caráter funcional do privilegio:
sem um “outro” não existe privilegio, pois seu benefício [e encanto] vincula-se com a limitação. Você desfruta algo que o “outro” não tem. Assim o objeto do privilegio é também [e as vezes somente] um meio para reforçar a identidade O nexo psicológico seria do tipo: “eu tenho algo que o outro não tem porque eu...”
Para nosso exemplo, importa pouco como continua a frase, pois cada pessoa a constrói como melhor lhe convém, distribuindo o beneficio entre o objeto e a função que o privilegio cumpre [psicologicamente claro]. Para ser um “elegido” tem que haver um excluído. Existem diversas formas semânticas e perspectivas lingüísticas para exemplificar isto, mas não são necessárias para compreender a função geral.

Para muitos a questão do privilegio termina aqui, sendo necessário apenas procurar um equilíbrio entre \"mérito, privilegio e exclusão\". Mas a questão é mais complexa do que isso. O privilegio se converte numa perigosa questão social quando, uma vez institucionalizado pelo poder político, é utilizado para estabelecer padrões culturais e leituras da realidade que fundamentam o sistema de privilégios, e o apresentam como uma conseqüência do mérito, convertendo assim uma mentira em verdade, e um interesse particular em interesse público. Isto é basicamente um mecanismo perverso. Uma vez instaurada a \"razão\" do privilegio, desaparece o direito à crítica, e a exclusão se converte em \"justa causa\". A partir do discurso instaurado, o poder começa a produzir um conhecimento que acaba por converter os privilégios em lei.

Ate aqui, uma breve exposição da problemática do privilegio. Mas que acontece quando uma parte importante da sociedade, sem consciência sobre isto, apóia os privilégios? Em primeiro lugar, o apoio envolve identificar-se com os poderosos, e é justamente esta relação-imagem que precisamos mudar. Segundo o economista Marcio Pochmann, nossa classe média, muito identificada com a alta, não suporta o combate às desigualdades pois isso envolve combater privilégios e status. Isto explica porque da parcela supostamente “melhor educada e mais civilizada” surgem cada vez mais pessoas “demo-fóbicas”, mostrando níveis de violência alarmantes quando se trata de política, em particular da política de inclusão, alias profundamente democrática. Estes excessos beiram o surto psicótico, pois em vez das pessoas articularem uma crítica, perdem momentaneamente a noção de realidade e seu pensamento se desorganiza totalmente.

Para as próximas eleições, Pochmann destaca a importância de conduzir amplos debates públicos que tratem reformas mais profundas na sociedade, como o combate à grande concentração de terras, de meios de comunicação e de poder político. O Brasil mudou muito, mas não mexeu nas aristocracias rural e política. Por exemplo, hoje apenas 40 mil proprietários possuem 50% das terras e elegem 20% das casas legislativas.

A lista de privilégios e longa, mas nela ainda não figura o privilégio de ser cidadão. Pochmann está certo, somente um amplo debate público pode gerar a sinergia necessária para mudar esta realidade.


   





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