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Coerência Teórica

Psicanálise e psicologia cognitiva


o eterno dilema humano de insistir na superficialidade para evitar as verdades profundas.
 
por Hugo Bleichmar



Se costuma tratar como opostos a terapia cognitiva e a psicanalítica sem aprofundar nos pontos de convergência nem nas diferenças. No entanto a terapia psicanalítica tem sido, e continua a ser, uma terapia cognitiva entanto modifica crenças e idéias. Desde o início, Freud argumentou que era essencial desfazer o trabalho da repressão para que aquilo que era objeto do processamento inconsciente se tornasse um objeto daquilo que ele chamou expressamente de \"correção associativa\", ou seja, uma vez na consciência que pudesse ser contrastado com outras idéias que permitiriam corrigir-la. Ou seja, um processo em duas etapas: a remoção repressão e, em seguida, a reestruturação cognitiva (contraste entre as idéias), sendo este último um passo decisivo.

Através de interpretação, instrumento privilegiado - embora não único - da terapia psicanalítica, se trasmitem ao paciente idéias que lhe permitem pensar de forma diferente sobre a sua posição como sujeito, seus desejos, e das condições que o moldaram. A reconstrução histórica atua porque resignifica o passado. Mais uma vez, a terapia permanece no nível cognitivo, da troca de idéias, para modificar as crenças do paciente. Ainda, a técnica onde o terapeuta não é quem faz as interpretações, mas através de suas perguntas, orienta o paciente a rever e questionar suas convicções tem toda a estrutura do chamado diálogo socrático, que a terapia cognitiva tem como sinal de identidade. As intervenções analíticas chamadas de \"confrontações\", em que o analista faz que o paciente perceba as contradições entre seus juízos sobre a realidade é uma reestruturação cognitiva.

Mas se a psicanálise é uma terapia cognitiva, é só isso? E, além disso, quais são as suas diferenças com a terapia cognitiva, incluindo aquela chamada de terapia postracionalista? Para a psicanálise, ao contrário da terapia cognitiva: a distorção cognitiva é motivada pelos desejos, conflitos e angustias. Não são apenas simples erros de julgamento, ou \"falsas crenças\" que podem ser modificadas apenas pelo \"empirismo colaborativo\" segundo afirma Aaron Beck (o paciente e o terapeuta, como cientistas interessados na verdade, aportam provas e refutações), mas dependem de estados afetivos desejados ou evitados. O inconsciente não é apenas desconhecimento, mas algo que você não quer saber porque provoca um profundo descontentamento. Existem vários níveis do inconsciente, não só no grau de desconhecimento, mas em relação à sua origem, ao estado das representações e à carga afetiva deles. O inconsciente abordado na terapia analítica inclui o inconsciente cognitivo, mas também abrange de forma privilegiada àquele que surge das defesas emocionais. Os mecanismos de defesa mantem ativamente tanto o desconhecimento da consciência quanto a deformação cognitiva. Se estes não são abordados explicitamente fazem com que, uma e outra vez, o sujeito repeta as convicções que precisam ser acreditadas e logo reprima, dissocie, os conhecimentos adquiridos no tratamento. O anterior refere-se à resistência emocional à restruturação cognitiva na qual o tratamento transcorre.

A transferência (repetição com o terapeuta de antigos relacionamentos, ou inversão dos lugares ou papeis que existiram nesses relacionamentos, ou atuação com o terapeuta de identidades e papeis que nunca foram vividos [realmente] mas sim desejados, etc) constituem o centro da observação e da experiência emocional da mudança. O que é submetido à analise não são apenas as crenças e estados emocionais do paciente, mas também os do terapeuta, o campo intersubjetivo criado entre os dois, de quê forma os discursos e estados emocionais de um condiciona ao outro. Ao contrário da psicologia e da psicoterapia cognitiva as quais tem como axioma básico \"de acordo a como se pensa, assim nos sentimos\", dando prioridade absoluta à cognição, a psicanálise compreende a relação de uma forma mais complexa: cognição e afetividade se alimentam mutuamente, formam estruturas cognitivas-afetivas que vão se articulando ao longo da vida. Assim não so \"como se pensa se sente\" mas também \"como se sente se pensa\" [o que constitui a base emocional do prejuiço]. Uma afetividade que tem em seu origem, e permanente dependência, estruturas neurobiológicas e hormonais diferentes daquelas que estão na base da cognição, algo que já foi demonstrado sem sombra de dúvida pelos recentes estudos neurocientíficos. Não é por acaso que a psicanálise sempre insistiu no conceito de pulsão, do papel do corpo biológico como um componente das estruturas. Isto outorga à psicanálise a possibilidade de diálogo com as neurociências, algo impossível desde o ponto de partida da psicologia cognitiva.


Hugo Bleichmar, é um renomeado psicanalista argentino, com prolongado desempenho na Espanha, como diretor do curso de pos-graduação em psicanálise da Universidad Pontificia Comillas (Madrid), e presidente da Sociedade “Forum“ de Psicoterapia Psicanalítica na Espanha


(*) leia o artigo original - fonte: Revista Aperturas Psicoanalíticas [Argentina]    





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