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Meios de Comunicação

A Dimensão Simbólica dos Meios de Comunicação


As instituições midiáticas, influenciam a construção dos imaginários sociais, dispõem de um instrumento eficaz de controle da vida coletiva e do exercício da autoridade e do poder
 
por Diana Coelho e Alice Lucena



A transmissão de conteúdo simbólico não esteve sempre atrelada aos meios de comunicação. Thompson relembra que, em épocas remotas, conteúdos simbólicos eram produzidos e circulavam através de uma comunicação não mediada, face a face, desempenhada também por instituições como igrejas, escolas, família – que ainda hoje figuram como importantes atores de difusão de conteúdo para os membros que delas fazem parte. No entanto, com o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação de massa e sua gradual inserção em nosso cotidiano, a mídia adquiriu papel fundamental em nossa sociedade, tanto pela sua produção de conteúdo em larga escala quanto pelo seu alcance espaço-temporal. Essa atividade de produção e transmissão de formas simbólicas caracteriza seu poder simbólico, que implica numa “capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas” (Thompson) Ao reconhecer o poder simbólico que as instituições midiáticas detêm, preocupa-nos os efeitos que as informações produzidas e repassadas podem causar no imaginário social, onde o conteúdo transmitido implica em relações imagéticas que atuam como memória afetiva de uma cultura.

É através do imaginário social que uma coletividade esboça sua identidade e objetivos, estabelece a distribuição das posições sociais, detecta inimigos e organiza passado, presente e futuro. “Trata-se de uma dimensão da consciência humana em que se explicitam interesses, conflitos e controles da vida coletiva. É por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo” (Moraes). Os imaginários sociais constituem pontos de referência no vasto sistema simbólico que qualquer coletividade produz e através do qual ela se percebe e se divide, e elabora os seus próprios objetivos. Através dos seus imaginários sociais, uma coletividade designa a sua identidade, elabora uma certa representação de si, estabelece a distribuição dos papéis e das posições sociais, exprime e impõe crenças comuns, constrói uma espécie de código de bom comportamento, designadamente através da instalação de modelos formadores.

Estas considerações colocadas por Baczko e analisadas por Moraes nos alertam para o potencial que as instituições responsáveis pela produção e transmissão de conteúdo simbólico têm para penetrar no imaginário social. Torna-se necessário reconhecer que a comunicação mediada envolve escolhas de signos, de combinações e intenções, de forma que o conteúdo transmitido está imbuído de símbolos que caracterizam a fonte que o produziu.

O poder simbólico e a dimensão política da comunicação mediada.

Ao propor uma distinção entre quatro tipos fundamentais de poder – político, coercitivo, econômico e simbólico - Thompson analisa que eles não são isolados; ao contrário, dialogam entre si. E nos dá uma dimensão de que forma o poder político dialoga com o simbólico: “A autoridade do Estado pode também se apoiar na difusão de formas simbólicas que procuram cultivar e sustentar a crença na legitimidade do poder político.” Nesse contexto, como afirma Baczko, as instituições midiáticas, na medida em que influenciam e ajudam a construir os imaginários sociais, dispõem de um instrumento eficaz de controle da vida coletiva e do exercício da autoridade e do poder: “os mass media fabricam e emitem as representações globais da vida social, dos seus agentes, instâncias e autoridades”. Segundo Chaui, o discurso midiático assume uma função ideológica que consiste em compor “um imaginário e uma lógica da identificação social com a função precisa de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular, dando-lhe a aparência do universal”.

Existe um sistema político que privilegia e controla a informação em favor de um setor social minoritário [e não representativo da sociedade] O controle dos meios de comunicação pelo governo, os converte numa ferramenta estratégica para o conrole político. Por isto, por um lado se privilegiam e promovem monopolios comunicativos que respondem a determinados interesses, próximos ao grupo de poder que sustenta o governo. Por outro lado, se privilegia também uma prática de repressão sistemática como uma forma permanente de relação. É alarmante que umas poucas empresas possuam o controle absoluto das estações de radio e televisão.

Ao omitir representações, identidades e anseios de parte da sociedade, pode-se inferir que as instituições midiáticas desejam impedir que determinadas expressões contradigam o discurso que se quer oficializar. Em geral, o que prevalece é um único discurso hegemônico, cujo conteúdo segue uma linha editorial que serve aos interesses de um setor minoritário da população. No entanto, sabemos que os meios de comunicação possuem um papel social que envolve, dentre outros fatores, a transmissão de conteúdos de interesse publico - e não privado - incluindo informações de caráter diverso, informativo, artístico, cultural etc. Diante do descumprimento de muitos desses itens e da necessidade de dar vazão a discursos que não eram veiculados pelas instituições midiáticas, ao longo da história foram surgindo iniciativas de comunicação alternativa, que tinham como intuito transmitir uma visão diferenciada e crítica dos acontecimentos veiculados pela mídia tradicional.

Assim, a comunicação alternativa pretende ser uma opção como canal de expressão e de conteúdos info-comunicativos em comparação à grande mídia comercial e à mídia pública de tendência conservadora. Suas diferenças são percebidas na direção político-ideológica, na proposta editorial – tanto pelo enfoque dado aos conteúdos quanto pelos assuntos tratados e pela abordagem critica - nos modos de organização (de base popular, coletiva, no quintal de militantes) e nas estratégias de produção/ação, entre outros aspectos. Por muito tempo, os meios de comunicação alternativa, partindo de iniciativas pessoais, enfrentaram dificuldades financeiras para se manter, o que acarretava em um conseqüente déficit em seu escopo. Entretanto, nas últimas décadas temos visto um fenômeno de crescimento acelerado da imprensa alternativa, que vem se renovando graças à popularização da internet. Agora, os produtores de informação que querem transmitir seu conteúdo encontram na web um meio que potencialmente apresenta alcance global, além de possibilitar canais gratuitos de expressão aos seus usuários.

Mas cabe a pergunta: ate que ponto este alcance potencial se concretiza? Ate que ponto a marginalidade que ocupam a expressão e a vontade popular no mundo real não está se repetindo no mundo virtual? Será que a função da comunicação alternativa não é mais do que uma válvula de escape?



(*) leia o artigo original - fonte: UFRN    





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